A arte de usar a voz para fazer a diferença por meio das diferenças

Caio Ferracina

A arte de usar a voz para fazer a diferença por meio das diferenças
(falar de Diversidade na Comunicação não é fazer favor…)

A Seleção Brasileira esteve longe da prática do “futebol arte”, como a previsão do artigo da semana passada (relembrou?). Mas então vamos falar de ARTE de verdade, com todas as letras maiúsculas, nessa semana.

Ah.. e não quero te perder aqui no segundo ou terceiro parágrafo; por isso, já adianto: vou continuar fazendo conexões de assuntos de Comunicação com momentos da minha fase de transição de trabalho. E quero te contar o quanto uma obra de arte cumpriu o seu papel nesse meu momento: me fez refletir e ir além!
Estou me referindo à tela “Operários”, de Tarsila do Amaral, na qual tive a oportunidade de conhecer de perto no MASP, em São Paulo, na excelente exposição com as principais obras desse ícone do Modernismo brasileiro.

Confesso que a admirei por muitos minutos, mais do que qualquer outra obra do Museu. “Operários”, para mim, é uma das obras mais marcantes, DE TODAS da vida; então olhar para os cinquenta e um rostos, um a um, foi uma oportunidade única! E aqui deixo a conexão que quero explorar com você nesse artigo: a Diversidade, e o quanto Tarsila manifestou algo importante para a época.

Há muitas interpretações, das mais óbvias às mais complexas, sobre as intenções e visões de Tarsila ao pintar as feições dos trabalhadores de todas as cores, gêneros e raças com as cinzentas chaminés ao fundo. Mas algo é inspirador: para falar dos dilemas, injustiças sociais e a massificação do trabalho, a artista usou a poesia das diferenças, mas, ao mesmo tempo, a dureza da realidade das mesmas.

E foi aí que me tocou essa conexão entre o quanto cada profissional de Comunicação tem a oportunidade de carregar consigo um pouco de Tarsila, para olhar para as pessoas e suas diferenças, para representá-las e para ser os seus ouvidos e a sua voz nas empresas. Com um ponto importantíssimo: o que fazemos não é arte!

Qual o seu principal canal de Comunicação? A voz!

A natureza criativa, o perfil mais comunicativo ou as oportunidades de atuar com temas cool geram essa percepção de “pegada artística” no imaginário de um ou outro integrante nas empresas. Mas as áreas de Comunicação hoje têm um papel no Business, afinal nunca se falou tanto de propósito, cultura, marca empregadora, experiência do funcionário e de Diversidade como agora!

Mas o que temas como Diversidade têm a ver com Business? Sim, isso transforma a vida, a percepção, o desenvolvimento e a carreira de quem trabalha com você, e ainda traz resultados com pessoas engajadas e acolhidas como elas são. Não quer acreditar nesse tal de Caio, metido a comunicador com opinião? Tudo bem! Acredite no Ricardo Voltolini, da Ideia Sustentável, e autoridade no assunto de sustentabilidade empresarial do nosso país. “As companhias que investem em diversidade étnica têm 35% mais chances de obter resultados superiores aos de empresas sem a mesma orientação. As mais diversas em gênero chegam a ser 21% mais lucrativas”.

‘Ah.. mas eu não apego muito a números. Quero ver as coisas acontecendo na prática!’. Você é desses? Tudo bem.. A Cristina Junqueira, Cofundadora e Vice-presidente do Nubank, traz uma visão assim para você. “Como manter uma cultura de inovação? Com diversidade. Cinco pessoas parecidas vão pensar igual e trazer as mesmas ideias. Aí eu só preciso de uma, certo?”.

As evidências de que empresas com olhar para Diversidade prosperam são inúmeras. Mas além de ser Business puro atualmente, essa nova fase nas empresas nos dá a oportunidade, na Comunicação, de falar de pessoas e com pessoas, evidenciá-las, tanto em suas características, talentos e diversidade. E o principal: usar o nosso principal canal para fazermos a diferença por meio das diferenças.

Não estou falando de intranet, de newsletter, de mural para se sentir parte do Business… Estou falando do principal canal que nos é dado NA VIDA! A voz! E que aposto que nenhuma empresa, independente da cultura, do olhar para Diversidade ou da pegada de comunicação, vai pedir que você a use menos.

Falar de Diversidade não é fazer favor!

As empresas no mercado vivem realidades de cultura de Comunicação e de Diversidade diferentes, quanto à maturidade, importância estratégica ou prioridades, eu sei! Fora que também quem sou eu para dizer “Faça isso” ou “Faça aquilo” sem o seu conhecimento de causa na sua rotina?

Mas como comunicadores, não podemos simplesmente aceitar que a empresa está deixando de prosperar e crescer por falta de informação ou falta de diálogo; ou porque não está discutindo assuntos que afetam nosso público interno e, potencialmente, o público externo, que geram e consomem nosso conteúdo de Comunicação, não é mesmo? Afinal, atualmente, “Desenvolver pessoas é tão importante quanto desenvolver tecnologias”, como disse Ligia Zotini, fundadora da Voicers e pesquisadora e pensadora de Futuro.

Não tem força? Mas tem voz!

Não tem influência? Mas tem aliados!

O papel de dar clareza é seu. Sempre foi e sempre será… Porém não como um super-herói, mas como um ser habilidoso que não espera a necessidade bater na porta e se conecta para tirar as pessoas da sua empresa do senso comum ou do nível básico de temas como gênero, orientação sexual… aqueles de sempre (“Mas o que quer dizer cada letra do LGBTQI+?”), por exemplo.

Comece pelo básico! E por você mesmo, se necessário… Não se sente pronto como comunicador? Procure ajuda e exercite a empatia. Afinal, falo por mim: homem, branco e hetero. A chance de dizer bobagem? Enorme! Eu tive dois excelentes professores (e amigos…): Juliana Samie e Gustavo Narciso, e pensei muito neles nesse artigo.

Use seu inconformismo e habilidades de comunicador sempre pensando em surfar essa onda de busca dos profissionais por propósito e discursos coerentes e verdadeiros das marcas que os empregam. Mas principalmente no orgulho em pertencer e em realizar um trabalho que transforma, assim como Tarsila fez e tinha orgulho de pertencer a um movimento de pessoas que tinham grandes responsabilidades no meio que estavam inseridos.

Lembre-se de Tarsila: como você pode aproveitar a poesia das diferenças para alavancar a sua empresa; mas, ao mesmo tempo, sem deixar de olhar para a dureza da realidade das mesmas. Comunicação é genuína e não modismo!

Sobre o Autor
Caio Ferracina tem mais de 12 anos de experiência em Comunicação Interna, com passagem por C&A e Grupo Santander. Formado em Jornalismo (Cásper Líbero) com Pós Graduação em Administração de Empresas (FAAP - SP), é especialista em conteúdo e adequação de linguagem para canais e atua na gestão e execução de soluções estratégicas co-construídas para projetos e materiais com foco em cultura, engajamento, diversidade, sustentabilidade e marca.
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